Como organizar a retomada pós-covid 19

Em 4 meses o mundo mudou muito mais do que qualquer um poderia prever. Imprevisivelmente a sociedade global vivenciou uma crise sem precedentes na saúde, no comércio, nas finanças, na política, nas relações de trabalho e nas relações humanas.

Tudo de repente e de uma vez só.

O novo coronavírus afetou duramente todas as nossas estruturas: tivemos que aprender a lidar com nossos medos e dores mais profundos. A dor da morte, o medo de perder o emprego, a instabilidade financeira e a incerteza de não saber o que vai acontecer são apenas alguns exemplos.

Todos esses acontecimentos estão gerando consequências imensuráveis no corpo humano. O comprometimento respiratório é apenas uma das alterações provocadas pelo vírus. Há relatos de que ele também pode causar problemas cardíacos, renais, alterações pressóricas, distúrbios de coagulação e prejuízos imunológicos.

O cérebro é um dos órgãos especialmente afetado pelo vírus. Complicações neurológicas têm sido reportadas em 36,4% dos pacientes, tendo ainda se mostrado mais comuns em 45,5% dos pacientes com quadros mais severos de infecção.

Por conta de todas essas alterações, o vírus também gera um grande aumento nos níveis de estresse e ansiedade das pessoas. Um estudo publicado na World Economic Forum indica que na segunda metade de 2020 viveremos uma epidemia secundária de burnouts e absenteísmo relacionado ao estresse causado por esta crise do covid-19, conforme publicamos no blog da House of Feelings.

Ao mesmo tempo, 1 a cada 3 funcionários enfrentam problemas de saúde mental, segundo a Kantar 2019 e 70 a 80% das pessoas estão insatisfeitas com o trabalho no Brasil e no mundo, de acordo com a ISMA 2019. Diante disso, o grande desafio das empresas agora é conciliar a retomada do trabalho com a estabilidade emocional dos colaboradores para que seu crescimento operacional não seja comprometido.

Como a empresa pode preparar mentalmente seus colaboradores para a retomada?

Em primeiro lugar, é preciso investir tempo para avaliar os danos provocados pela pandemia na vida dos colaboradores. Fazer uma rápida pesquisa por e-mail ou até mesmo via formulário online será uma estratégia importante para diagnosticar a gravidade da situação.

Nessa fase, esteja preparado(a) para escutar, de forma aberta e sincera, como os colaboradores estão se sentindo neste momento de transição. É natural que sentimentos como raiva, frustração, ansiedade e exaustão emocional venham à tona neste período.

Por isso é saber se comunicar de forma não-violenta e ter empatia para acolher estas pessoas fará uma enorme diferença. A forma como você se comunica com sua equipe é determinante para estabelecer a confiança mútua necessária para seguirem em frente.

Segundo a Spikes Cavell, 57% dos projetos de tecnologia que não alcançam resultados esperados falharam por causa de uma comunicação ruim entre as partes interessadas. Nos Estados Unidos estima-se que o uso incorreto de ferramentas de comunicação (58%), a falta de informes por parte da empresa (43%) e a dificuldade de encontrar a informação necessária para a realização de tarefas são os fatores estressantes mais citados por colaboradores. 

Outro ponto é entender quais são as expectativas das pessoas daqui para frente. Dados recentes de uma pesquisa da Robert Half realizada com 620 profissionais brasileiros mostram que 40% dos entrevistados que relataram que suas organizações deram novos auxílios com o início da pandemia e a maior adesão ao trabalho remoto, o apoio psicológico foi listado por 14% deles.

Já o auxílio financeiro para montar o home office que antes da pandemia era oferecido a menos de 1% dos pesquisados, agora é apontado por 8%. Com a permanência do home office, os gestores precisarão ficar muito atentos ao bem-estar dos colaboradores e aos índices de burnout, já que, a sobrecarga de trabalho pode aumentar.

Descobrir novas formas de fomentar a interação social (para além das lives e happy hours online) e manter o time engajado será também outro grande desafio para a retomada nas empresas.

Mas o mais importante é entender que você está diante de uma oportunidade única: reconstruir um novo propósito para sua equipe. Afinal, o mundo inteiro mudou e nós mudamos com ele. Será que vamos saber aproveitar essa mudança de forma positiva? Será que estamos preparando nossa mente (e coração) para tomarmos atitudes e decisões mais conscientes daqui para frente? Que impactos queremos deixar numa sociedade pós-pandemia?

Estas são as perguntas-chave que precisaremos fazer, se quisermos ser bem-sucedidos na retomada!

Porque precisamos falar de sentimentos antes do final da pandemia

Como a sua equipe está sendo preparada mentalmente para retomar as atividades da empresa no final da pandemia?

Sei que você pode estar achando que esta é uma pergunta antecipada, pois todos estão focados em sobreviver à tempestade econômica que se aproxima e talvez não tenham tempo para pensar nisso agora.

Mas este assunto é muito mais urgente do que imaginamos. 

Um estudo publicado na World Economic Forum indica que na segunda metade de 2020 viveremos uma epidemia secundária de burnouts e absenteísmo relacionado ao estresse causado por esta crise do covid-19.

Esta pesquisa feita com uma amostra representativa da população belga mostra que 32% da população classificada como altamente resistente ao estresse antes da pandemia do coronavírus, encolheu para 25% duas semanas após a quarentena. 15% da população que indicava altos níveis tóxicos de estresse antes da pandemia saltou para 25%.

Segundo o estudo, muitas dessas pessoas têm alto risco de absentismo a longo prazo do trabalho e estão suscetíveis a doenças e burnout. Mesmo se permanecerem no trabalho, a pesquisa da Eurofound registra uma perda de produtividade de 35% para esses trabalhadores.

O estudo também compara os efeitos psicológicos da covid-19 aos da SARS de 2002, com possíveis traumas gravíssimos muito semelhantes.

Na China, por exemplo, 28% dos pais que estavam em quarentena com os filhos durante a SARS foram diagnosticados com distúrbio mental relacionado ao trauma.

Entre os funcionários em quarentena em hospitais, quase 10% relataram “sintomas depressivos altos” até três anos após a quarentena.

Outro estudo relatando os efeitos a longo prazo da quarentena da SARS entre os profissionais de saúde encontrou um risco de longo prazo para abuso de álcool, automedicação e comportamento duradouro de “isolamento”.

Isso significa que, anos depois de colocados em quarentena, alguns funcionários do hospital ainda evitam estar em contato próximo com os pacientes simplesmente não comparecendo ao trabalho.

Estressores durante a quarentena

Alguns estressores durante a quarentena são:

– Risco de contaminação
– Medo de adoecer ou de perder um ente querido
– Perda de liberdade 
– Insegurança financeira 
– Duração da quarentena (um estudo mostra que aqueles em quarentena por mais de 10 dias apresentaram sintomas de estresse pós-traumático significativamente maiores do que aqueles em quarentena por menos de 10 dias)

Frustração e tédio

– Suprimentos inadequados
– Informações inadequadas
– Preconceito (para aqueles que foram infectados)

Fonte: The Lancet (Fevereiro 2020)

Estes são apenas alguns fatores estressores durante a quarentena que podem gerar efeitos traumáticos consideráveis.

O mesmo estudo do The Lancet mostrou que o impacto da quarentena e do distanciamento social é muito mais sério e pode acarretar em:

– Suicídio
– Raiva 
– Ações judiciais
– Humor ruim
– Insônia
– Ansiedade
– Irritabilidade
– Exaustão emocional
– Depressão

Por que falar de sentimentos com seus colaboradores antes do final da pandemia?

Estes dados importantes nos alertam para o fato de que, tão importante quanto preservar a saúde física dos colaboradores, é prestar atenção à sua saúde mental durante a quarentena para poder reduzir ao máximo os traumas que estão por vir.

Sem medidas preventivas eficazes, os colaboradores podem adoecer e perder produtividade, motivação e comprometer fatalmente a capacidade de reação da empresa quando a empresa mais precisar: a hora da retomada.

Esta semana li um interessante artigo escrito pela Aisha S. Ahmad, no Chronicle of Higher Education que alerta para o fato de que, estamos tão preocupados com a tal “produtividade” na quarentena que muitas vezes nos perdemos no meio do caminho. Afinal, qual era o propósito mesmo para terminar aquelas dezenas de cursos online?

Talvez precisemos dar um passo atrás e respirar fundo, antes de continuar. Talvez precisemos olhar mais profundamente para nossos colaboradores e perguntar simplesmente: ‘como você se sente hoje?’

O mesmo estudo belga que alerta sobre o risco eminente de aumento dos índices de burnout e absenteísmo, cita o caso da França, o primeiro país a adotar uma abordagem diferenciada de tratamento após ataques e desastres terroristas nos anos 90.

Além do hospital e do posto de triagem para socorrer as vítimas, o país passou a oferecer também ajuda psicológica para tratamento pós-traumático. Eles entenderam que, além das feridas visíveis havia também outras invisíveis, antes ignoradas pelos tratamentos médicos e militares.

Adotar uma estratégia semelhante como a da França pode ser a única saída para as empresas que queiram manter a produtividade de seus colaboradores no mundo pós-pandemia.

Apoiar seus colaboradores agora, mesmo que, aparentemente, esteja “tudo sob controle” como prioridade não é apenas um gesto de empatia com o colaborador, mas também a forma mais eficiente de garantir que todos estejam preparados mentalmente quando tudo isso acabar.

Para te ajudar nesta importante missão, preparamos um exemplo de questionário para você aplicar aos seus colaboradores. De forma simples e rápida você consegue ter uma visão de como eles estão se sentindo e mapear possíveis ações para implementar. O link com as perguntas está aqui: https://forms.gle/BPt1fmo7uM8QwqQP8

Além disso, o que você pode fazer hoje para preparar seus colaboradores mentalmente para o mundo pós-pandemia? Compartilhe nos comentários, estou curiosa para ouvir você!